quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Mar de gente.
Um cigarro entre os dedos, a janela entreaberta; Meus olhos penetrando o interior, aguardando a sentinela. O vazio escurecido, como num abismo morto, e o espelho quebrado, me causando desconforto. A fumaça pairava sobre o ar, esquentando meus fracos pulmões e o adorno da eloquência de viver me puxava com sua mão. Era o vento me chamando, o abismo me gritando, a luz escurecida e a bruma lá no céu. Num mar de gente, escondi minha alma. Juro que procurei, mas se escondeu com minhas falhas. Minha caneta em outra mão, e meus olhos na escuridão. Como se nada existisse, como se o vazio me consumisse. Toda vez que gritasse, não ouviriam. Toda vez que corresse não me veriam. Toda vez que chorasse não perceberiam. Mescla de atitudes de prazer com virtudes do alento do negro do céu. Naquele mar de almas me encontrei, como me encontro no papel. Me invadiram, me levaram. Me esquentaram e esfriaram. A bebida quente misturava, a garganta fria que gritava, e meu socorro não atendido, como minhas mãos esticadas contra o nada. Mas a janela ainda era entreaberta, e o cigarro já não mais existia, pois as cinzas daquela droga se misturaram com as cinzas do corpo que jazia a minha vida. E as lágrimas antes existentes se sacrificaram, caíram misturando as gotas da chuva que adornavam. Eu, tão sórdida mulher. Amante da morte, de um vazio qualquer. Meus punhos caídos, jaziam sangue sobre o chão, com o espelho quebrado que um dia cortou minhas mãos. Nuvem áspera, da dureza dos meus sonhos, caídos ao relento, distante, perdurante, sem sobrenome. Eu, vazia e cheia, do cheiro da vida, do cheiro da morte, do cheiro do abismo, do cheiro das virtudes. Eu, neste mar de almas. Neste mar de gente. Neste mar negro. Eu, nesta morte incoerente, de prazeres docentes, de vida carnal. Neste vazio que me leve, dentre a solidão de quem um dia viveu para viver, e morreu para viver. Nesta alma encardida, neste querido relento, neste fundo sem fundo de um céu sem estrelas.
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